Sou muito fã dos Mamonas Assassinas, como acredito que 99% da minha geração também tenha sido. Por isso quis assistir o documentário, lançado 15 anos após a morte da banda, assim que entrou em cartaz. A comoção da estréia não atingiu nem 1% do que a banda merecia. Além de mim e de um amigo, na sala havia apenas mais 5 pessoas. Apesar disso, notei que o filme impactou a platéia com intensidade.
O documentário é bem diferente que imaginei. Há tempos eu não assistia as homenagens na TV, mas muitas das imagens deles me pareceram inéditas. (Isso porque não havia visto o "Conexão Repórter" do SBT, exibido na semana anterior à estréia, que fez um especial Mamonas e usou muitas das cenas que estavam lá).

É claro que uma coisa ou outra eu já teria visto, o arquivo pessoal dos Mamonas é explorado pela mídia ao extremo, desde a tragédia. Mesmo assim, a equipe prezou pelo ineditismo, foi atrás da família e de profissionais que eram tão próximos que chegaram a tornar-se amigos dos músicos, no breve período em que se mantiveram sob os holofotes. Algumas das declarações conseguidas, inclusive, expõe gente que a TV sempre "protegeu" à situações, a meu ver, inconvenientes e grosseiras. Expõe até os próprios Mamonas, com algumas revelações --mais de responsabilidade das pessoas que deram os depoimentos que dos produtores que as escolheram-- bastante desnecessárias.
Os idealizadores, como de praxe, querem vender o filme. Lógico que iam escolher o que surgisse de mais polêmico. Ou não? Este foi um questionamento que me passou pela cabeça tão logo saí da sala de projeção: Será que as declarações vistas ali foram as frases mais fortes durante a entrevista? O que teria sido cortado? Medo. Medo pela capacidade das pessoas que deram as declarações. Queriam passar uma visão além do que já foi dito, mas isso torna a homenagem duvidosa, a impressão que fica é a de que "passam-se 15 anos e o respeito dos amigos se dilui no ar... Os segredos que os deixaria em uma situação desconfortável, se ouvissem o que foi dito, já podem ser contados sem peso na consciência?". Onde fica a consideração e lealdade que se deve a um amigo? É assim que deveríamos tratar os que confiaram em nós quando não estão por perto?

Isso de fato eu não gostei. A confusão, que chegou a definir um dos integrantes por mimado, mauricinho, o que demorava a se arrumar e etc., me deixou ofendida. Imagine então, a família que assiste isso? Não é a verdade. É a opinião de uma pessoa é apenas a opinião daquela pessoa. Não podia ter sido usada para descrever alguém, por si só. Cadê o outro lado da moeda? Alguém para dizer que o cara era legal? Ou era assim, todos bacanas e aquele era o bosta? Opinião geral da nação? zZZzzzZz Fail.
O mais incoerente disso é que estavam falando essas coisas para um público que só foi ao cinema porque amou a banda, senão, ao menos os admirou e mantém por eles um respeito grande.
Por exemplo, achei que um dos piores tratamentos foi com Valéria Zopello, ex-namorada de Dinho, que se dispôs a falar. Enquanto ela contava que era levada por Dinho a todos os shows, que era impossível dizer não a ele, até porque ela queria estar junto, mesmo sabendo que os produtores não gostavam da presença dela, do outro lado, aparece Rick Bonadio dizendo que era um saco tê-la junto da banda o tempo todo, que "até era uma garota bacana", mas os caras (os outros integrantes da banda) queriam colocar mulheres na van e a garota (Valéria) estava sempre lá. - Ok, mas peraí, alguns dos caras não tinham namoradas? É... tinham. E quem é fã sabe. Rick provavelmente também sabia quando fez o depoimento. Acredito que esta cena tenha sido um mal necessário ao filme, é um momento marcante e que, após gravado, não tinha como ser ignorado.

Poderia até ser a intenção da produção desmistificar um pouco os "ídolos", mas pareceu papo de bar ver Samy, ex-empresário da banda, contando às gargalhadas que os rapazes se estressavam muito durante os shows e precisavam fazer umas coisas (as quais ele não quis mencionar) para relaxar. "Prefiro não falar...", a voz do produtor aparecia seguida pela imagem de várias mulheres entrando no camarim para falar com os Mamonas. Lamentável... Não importa. Decepciona quem lembra-se deles de uma maneira respeitosa, mexe com a memória das pessoas, especialmente com a das que se relacionavam com os rapazes na época.
Talvez se eu tivesse tido uma prévia de que poderia escutar coisas desse tipo, já no trailer, fosse ver (por curiosidade) mas com um escudo em punho. Se estivéssemos falando de pessoas vivas, que poderiam se defender, seria justo e acho que nem ligaria, até me divertiria vendo o circo pegar fogo, mas de cara me soou chocante. Fiquei um pouco ofendida com as declarações, mas as relevei por interpretá-las inconsequentes e impulsivas. Passei a diante e foquei no lado positivo do doc.

Para ser justa, há sim o lado bom: o filme não tem o foco na morte dos membros do grupo, é diferente de tudo que se vê por aí. Não mostram uma notícia da morte, não conta detalhes, não usam a misteriosa cena em que Julio Rasec comenta ter sonhado que o avião cai. É um ponto sem dúvida positivo, fugir do que todos já sabem e focar na trajetória deles, na conquista, e mostrar realizações bastante emocionantes. Adoro como reforçam com cenas o quanto eles eram irreverentes e criativos. O documentário trouxe de volta, de forma singela e simples, toda admiração que sentia por eles e estava adormecida em mim, descobrir somente com o filme fatos que eu desconhecia e pude relembrar outros. Ouvir da boca dos familiares histórias íntimas também e notar o carinho e a saudade que tem, é bem legal. Você revive a batalha e se sente mais perto. "Mas isso é coisa que todo documentário faz, né?" Sim, é. Acho que o toque de sensibilidade maior ficou por conta da cena final, mas é claro que eu não vou contar, né?! Tem que assistir. ;-)
Saudade, Mamonas. Pra sempre.
título original:Mamonas pra Sempre
gênero:Documentário
duração:1 hr 30 min
ano de lançamento: 2011
site oficial: http://www.mamonasprasempre.com.br
estúdio: Tatu Filmes
distribuidora: Europa Filmes
direção: Cláudio Khans
roteiro: Diana Zatz Mussi
produção: Cláudio Khans
música:fotografia: Johnny Torres e João Pavese
edição: Anna Penteado, Bruna Callegari, Diana Zatz e Felipe Igarashi
Trailer:

